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Voluntariado no Litoral Norte de SP: Desengarrafando Mentes

Depois de alguns anos me voluntariando em projetos ecológicos e espirituais, eu estava sentindo que era hora de dar um pouco mais do que recebo nos voluntários e uma ONG seria o projeto perfeito para isso. Foi em um Voluntariado no Litoral Norte de SP que encontrei o que procurava.

Pela Worldpackers que eu conheci o Desengarrafando Mentes, ONG que faz um trabalho ambiental, social e educativo em Maresias, litoral norte de São Paulo. Ela reunia em um só lugar todas essas coisas que eu amo. Fiz meu pedido de voluntariado, fui aceita e esperei a data combinada para a minha estadia.

O que é o Desengarrafando Mentes, Voluntariado no Litoral Norte de São Paulo.

Clima de praia no voluntariado em Maresias.

O Desengarrafando Mentes é uma instituição que faz um incrível trabalho ambiental, social e educativo. O projeto é muito conhecido por suas icônicas pranchas, que são feitas a partir da coleta de lixo na praia, transformando garrafas PETs em prancha para a criançada da comunidade surfar. 

Porém, mais do que recolher o lixo, eles incentivam o esporte e o cuidado com a natureza. E ainda há uma sede onde acontecem aulas de inglês, espanhol, informática e alfabetização para os adultos. Tudo isso coordenado por pedagogas e professoras que pensam em uma educação para além dos métodos quadrados das salas de aula tradicionais.  

O projeto foi idealizado e desenvolvido por Thiago, de quem falarei mais para frente, um cara que não quer apenas ajudar a comunidade, mas enxerga a grandeza que existe nas pessoas dali e acredita que, com os incentivos necessários, potentes manifestações e transformações podem surgir.

Como foi voluntariar no Desengarrafando em Maresias

Eu cheguei um pouco antes do Carnaval, um pouco antes também do início das aulas. Este ponto foi um pouco frustrante, porque o que eu mais queria era conhecer o processo educativo com as crianças.

Apesar disso, sinceramente, não foi um ponto que fez com que o voluntariado fosse ruim, não mesmo. Acho que faz parte da vida de uma viajante saber aproveitar as oportunidades que aparecem e entender que cada viagem acontece por um motivo, na hora certa, com um aprendizado que está ali te esperando.

Falando de forma objetiva e prática para quem quiser voluntariar por lá, a casa é linda e arejada. Thiago gosta que as coisas estejam limpas, o que faz o pessoal manter a ordem, e isso é bom para a convivência. As horas de trabalho foram flexíveis, desde que completasse o tempo combinado (saiba que isso pode variar de grupo para grupo).

Uma parte do trabalho foi um pouco pesada porque fiquei podando jardim, no Sol. Mas o Thiago é uma pessoa de muito diálogo e flexível, quando eu cansava, trocávamos de função e me diverti bastante tempo pintando (coisa que eu nunca tinha feito) e também limpando a casa, que considero uma tarefa simples.

Minha obra de arte: pintar tijolinhos!! Foi terapeutico.

Eu organizei a minha rotina trabalhando pela manhã e durante a tarde eu trabalhava no computador (boa internet viu nômades) ou ia dar uma voltinha. Tínhamos um dia de folga. 

Mas isso da carga horário acredito que pode variar muito conforme as atividades que estão acontecendo ali. É bom sempre perguntar antes, caso você tenha alguma necessidade especial de horas.

Para mim o ponto alto dos voluntariados sempre são as trocas com outras pessoas. Os aprendizados nas conversas que tive com o Thiago é o que foi mais rico para mim neste processo. E claro, a partilha com outros voluntários.

Quer saber o que mais me impactou e levei de aprendizado no voluntariado? Continue lendo.

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Privilégio da viajante branca, questões raciais e sociais, empoderamento: O que eu aprendi no voluntariado

O projeto fica em uma comunidade em Maresias. Essa praia tem uma divisão curiosa: nos primeiros quarteirões estão as pousadas, restaurantes e casas luxuosas. No meio, casas mais simples. No final, na subida para o morro, a comunidade. 

Se você buscar qualquer imagem de Maresias vista por cima, a parte que aparece é a primeira faixa: praia e luxo. Exceto por essa foto que tirei no Google Maps. 

Maresias vista de cima. O Desengarrando Mentes fica ali mais para o fundo, seguindo a mesma linha que o Sirena.

O aprendizado já começa quando Thiago, que é quem costuma nos buscar no começo da estrada e levar até o projeto, aproveita este momento para falar sobre o início da sua ideia sobre o Desengarrafando, sua ligação com o surf, suas raízes pretas, convicções políticas e sobre a certeza de que juntos podemos muito.

Na subida do pequeno morro dá para perceber claramente que os voluntários não são dali. Salvo exceções, que vejo até crescendo ultimamente (amém), os viajantes que voluntariam, inclusive eu, são jovens, brancos, de classe média, que tiveram a oportunidade de viajar por aí, seja em um sabático, nômade digital ou nômade raiz que vende sua arte.

Minha percepção foi que não precisamos vestir o colete do projeto para saber quem é viajante e quem é morador. Na pele, nas roupas e ar despreocupado que muitos voluntários levam já era o suficiente para fazer a distinção.

Eu já me questionava por ver que 99% dos viajantes em outros voluntariados que participei eram da mesma camada social que a minha, o que me fez perceber quão privilegiada eu sou por ter tido a escolha de “largar tudo e recomeçar”. 

Só que, ao estar ali no Desengarrafando, não isolada em sítio, mas dentro da comunidade, isso saltou mais aos meus olhos, entendendo que ainda há muitas barreiras para serem quebradas e que eu posso fazer minha parte nisso.

Não existem dados concretos sobre a diferença percentual de brasileiros brancos e negros viajando, lendo essa matéria da Trip com o Diaspora.black, vi que realmente não existe (ou não existia porque essa matéria já é de 2017) dados sobre isso. Mas não precisamos de muito para ver que grande parte dos turistas brasileiros nas viagens são brancos.

Dica para viajantes que vão se voluntariar: aproveite este momento para entender a realidade das pessoas que estão à sua volta. Voluntariar é divertido, mas também é uma grande fonte de aprendizado. Se você se permitir, leva lições que certamente mudarão a sua vida.

Questões raciais, sociais e empoderamento

Letícia e Alexia fazendo atividade artística com as crianças do Desengarrafando Mentes

Uma das coisas que mais me chamou atenção no Desengarrafando Mentes, como eu disse logo no começo, é que o Thiago vê a grandeza que existe na comunidade. Isso é, ele enxerga realmente as pessoas que estão ali.

Eu, que já estou aqui penando na desconstrução dos meus preconceitos, depois de ouvir sobre como ele quer que essa criançada aprenda outras línguas, artes, se empoderem, já pensei logo:

“Nossa, aqui é turístico, elas têm bastante oportunidade de trabalhar na recepção, coisas assim. Legal! Eita, legal? Acho que não né?! Será?”

E como lendo meu pensamento o Thiago já foi falando:

“Mas isso não é para elas serem funcionárias dessas pousadas não. É para elas terem a sua própria”.

Bom, foi um tapa na cabeça! 

Quão condicionada ao pensamento assistencialista de dar só um pouco para me sentir melhor, mas nunca o suficiente para que quem precisa esteja bem, eu ainda carrego.

Ali, conversando com ele, tive várias percepções desse racismo estrutural e outros preconceitos que nos condicionam a ver as desigualdades como se fossem algo natural e até positivo para o funcionamento da sociedade.

O privilégio branco vai além das viagens, ela se reproduz cotidianamente, em todas as partes. Além disso, temos toda a questão do abandono com as camadas mais pobres. Em minha realidade, os trabalhos voluntários que conheci tinham uma visão muito mais assistencialista do que empoderadora e isso virou uma chavinha em mim.

Não falo isso por me achar uma vítima dos meus preconceitos. Mas por saber que, tão profundas são as raízes, é muito fácil cair no discurso da “descolada” enquanto continuamos reproduzindo os mesmos erros. Compartilho minha experiência para te ajudar a ver onde você também continua neste ciclo danoso.

Para mim este é o propósito das viagens, ampliar a minha percepção de mundo.

Dica para o viajante que vai voluntariar: nas viagens procure ouvir mais do que falar. Pergunte, converse, aprenda.

Uma parte do quintal do Desengarrafando Mentes, onde eu capinei e limpei.

Não sei o quanto o Thiago traz este ensinamento propositalmente ou o quanto isso está tão enraizado nele que acabamos percebendo a questão de privilégios e preconceitos de uma forma sútil, construtiva e em todos os detalhes.

O Desengarrafando Mentes ainda possui uma galeria de arte, com artistas da periferia, realizando saraus e eventos que trazem muito a cultura afro-brasileira, proporcionando identificação e empoderamento da comunidade, mas também a abertura de consciência dos viajantes.

Ficou com vontade de conhecer o Desengarrafando Mentes ou outros projetos? 

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Viajantes negros para acompanhar e se inspirar

Tendo dito tudo o que falei acima, achei bom compartilhar viajantes negros que estão me inspirando e me ensinando muito por aí.

Manoela do Escritora Viajante – o nome da página da Manoela já é bem autoexplicativo, essa mulher sai por aí viajando, dividindo sua experiência e vendendo o seu livro. No Instagram ela divide um pouco da sua vida, história e ainda abre agenda para curso e mentoria.

Lorena Duarte – conheci Lorena recentemente pela Worldpackers e amei a sua página, fotos lindas. Eu poderia dizer que a sensação da página dela é “Que delícia”, as fotos são bonitas, os textos gostosos de ser lido, ela vai compartilhando sua trajetória como mochileira e é legal acompanhar.

Rute Ramos – a Rute foi uma das minhas amigas de quarentena, onde estávamos no mesmo projeto e ficamos nele durante o primeiro período do isolamento. Ela é aquela mulher que sabe de tudo, tudo! Incrível. E agora se dedica à arte. 

Anderson do Contos de Bicicleta – esse contador de história é um cicloviajante pela América Latina, que inspira e traz ótimas reflexões no meio do caminho. Ele vai mostrando cada cantinho que encontra pedalando sua bike.

Sophia Costa – é uma super comunicadora que viaja como nômade digital. Além das fotos de tirar o fôlego, Sophia ainda divide várias dicas, dá cursos e mentoria para quem quer seguir a vida nômade. 

Espero que a minha experiência e desses viajantes te inspire a cair neste mundo e transformá-lo em um lugar melhor! 

Graduada em psicologia e pós-graduada em Negócios da Moda, direcionou suas formações para a sustentabilidade. Após conhecer algumas iniciativas no Brasil e na ânsia de descobrir novas, colocou o pé na estrada. Através de viagens e experiências sustentáveis, facilita o caminho da transformação pessoal necessária para uma vida mais integrada.

1 comentário em “Voluntariado no Litoral Norte de SP: Desengarrafando Mentes

  1. Pingback: Cidade Escola Ayni em Guaporé, como funciona o voluntariado – Por um Recomeço

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